O financiamento climático no Espírito Santo se refere aos recursos e mecanismos financeiros mobilizados por este estado brasileiro, bem como aqueles advindos do governo federal, de outros estados e do exterior, para reduzir emissões de gases de efeito estufa e adaptar-se aos impactos das mudanças climáticas.

Localizado na Região Sudeste do Brasil, o Espírito Santo apresenta risco de elevação de chuvas, secas, temperaturas e ressacas como possíveis consequências das mudanças climáticas, com efeitos na economia e na saúde da população local.

As autoridades estaduais implementam medidas próprias para auxiliar os municípios a lidarem com essas questões, bem como buscam parcerias no resto do Brasil e no exterior para trazer soluções de mitigação e adaptação, sendo o estado considerado um protagonista no fortalecimento de diretrizes climáticas. O estado é membro do Consórcio Brasil Verde, juntamente a 14 outras unidades federativas, sendo o governador Renato Casagrande presidente do órgão.

Contexto ambiental no Espírito Santo thumb|O cientista Augusto Ruschi discursando em 1977 em Santa Teresa, no contexto de um embate com o então governador Élcio Álvares por divergências quanto à instalação de uma fábrica de palmito. Em seu livro Manifesto Verde (1985), o escritor Ignácio de Loyola Brandão registra um comentário do cientista Augusto Ruschi em entrevista à 2ª edição da revista de ecologia Pau-Brasil, de setembro/outubro de 1984, opinando que o Espírito Santo "infelizmente foi a universidade que formou os maiores especialistas em destruição de florestas, seguramente, de todo o universo".

Em 2016, a Fiocruz lançou em parceria com o então Ministério do Meio Ambiente um software denominado Sistema de Vulnerabilidade Climática (SisVuClima), que calcula a vulnerabilidade de cidades às alterações climáticas. Pelos dados da ferramenta, os municípios de Ponto Belo, Ibatiba e Vila Pavão seriam os mais vulneráveis do estado, e Vitória, Cariacica, Vila Velha e Itapemirim, os mais expostos à mudança do clima. O software também apontou Vitória, Aracruz e Cachoeiro de Itapemirim como os de maior capacidade institucional para se adaptar, com Divino de São Lourenço, Pedro Canário e Irupi no outro extremo deste espectro.

Em janeiro de 2025, o Anuário Estadual de Mudanças Climáticas revelava que o Espírito Santo era um dos três únicos estados brasileiros a conter algum plano para mudanças climáticas (no caso, o Plano de Descarbonização e de Adaptação). No evento de lançamento do anuário, o governador Renato Casagrande informou que o estado havia investido R$ 200 milhões em obras de adaptação.

No final de outubro de 2025, uma reportagem da revista ES Brasil posicionava o Espírito Santo como local desejável para financiamentos climáticos nacionais e internacionais por conta do "alto nível de transparência e pela localização geográfica estratégica" e de uma "agenda ambiental consistente com uma base econômica diversificada". A aposta dos especialistas ouvidos para a reportagem era de que a COP30 deverá aquecer os investimentos climáticos, porém sob mais cobrança de transparência e governança por parte das instituições de crédito.

Segundo informações do Anuário Estadual de Mudanças Climáticas de 2025, o Espírito Santo era o estado com a segunda maior proporção de pastagens degradadas, com 22% do seu território nessas condições, ficando atrás apenas do Sergipe.

Impacto das mudanças climáticas no Espírito Santo + Registros de desastres no ES (2000–2023) Tipo de desastre Número de registros Percentual Enxurradas 441 25% Incêndio florestal 240 14% Estiagem/Seca 214 12% Inundações 174 10% Chuvas intensas 163 9% Vendavais/Ciclones 121 7% Movimento de Massa 110 6% Outros 271 16% O Espírito Santo tem a maior proporção de municípios mais vulneráveis a desastres naturais como inundações, deslizamentos de terra e o aumento do nível do mar dentre os estados brasileiros. Entre 2000-2023, 8,21 milhões de pessoas foram afetadas por desastres no estado, principalmente enxurradas e incêndios florestais, com consequências especialmente nos sistemas de esgoto e fornecimento água.

No clima e na temperatura Segundo pesquisa da UNIFESP, o litoral do Espírito Santo é a região do Brasil que mais registra variações extremas de temperatura, tendo apresentado ao longo de 40 anos um aumento de 188% na incidência dessas variações, que afetam a agricultura, a biodiversidade e a saúde da população local. thumb|esquerda|Gráfico da mudança de temperatura no Espírito Santo entre 1901-2020. Cada faixa representa a temperatura média de um ano inteiro. A temperatura média do período 1971–2000 serve de limite entre as cores azul e vermelha. Segundo o cientista brasileiro Carlos Nobre, o Espírito Santo deverá sofrer com chuvas intensas, altas temperaturas, secas prolongadas, ressacas e erosões costeiras como consequências das mudanças climáticas.

Segundo ele, a temperatura no estado pode subir 1,5 °C permanentemente até 2030. Na segunda metade do século XIX, se a temperatura subir mais de 2,5°, a ocorrência de ressacas pode aumentar, pondo em risco populações que habitam zonas costeiras baixas. As regiões costeiras do estado, e do Brasil como um todo, podem atingir temperaturas insuportáveis para o corpo humano até 2100, ou já nos anos 2070, se as emissões de gases do efeito estufa não forem reduzidas. Os volumes de chuva normalmente previstos para um mês inteiro podem cair em apenas alguns dias. thumb|300px|Ruas de Fundão inundadas pela cheia do rio de mesmo nome em 2013. Um estudo divulgado pela Fiocruz em novembro de 2015 projeta uma possível diminuição em mais de 20% no volume de chuvas e um aumento no número de dias secos consecutivos no território estadual como um todo.

Até maio de 2024, o estado havia contabilizado 47 desastres naturais, 23 pessoas mortas e cinco desaparecidas.

No meio ambiente thumb|left|Corais com algas expostos na Costa das Algas. Ainda segundo Carlos Nobre, a diminuição das chuvas e o aumento da secura podem comprometer a Mata Atlântica e abrir caminho para que o clima semiárido do nordeste brasileiro se expanda para o sul, atingindo o norte do estado e comprometendo a biodiversidade local.

Em junho de 2022, o programa Globo Repórter explorou diversos locais brasileiros (classificados pela reportagem como "paraísos"), incluindo dois no Espírito Santo: os manguezais do Rio Piraquê-Mirim, em Aracruz, e a chamada Costa das Algas, entre Serra e Aracruz. A Costa das Algas reúne a maior variedade de algas do Atlântico Sul; lá vivem espécies altamente sensíveis a variações de temperatura que podem se desidratar e perder oxigênio, o que afetaria por consequência os corais, que embranqueceriam.

Já em Aracruz, o programa registrou a morte de 500 hectares do mangue (30% de sua área) como consequência de extremos climáticos em 2016. Com isso, mais de mil toneladas de CO2 por hectare que ficaram "presas" no solo por centenas de anos foram liberadas na atmosfera. Em 2024, a UFES liderou um projeto de recuperação com o objetivo de trazer de volta pelo menos 200 dos 500 hectares devastados, com a ajuda de ribeirinhos e catadores de caranguejos locais.

Nos recursos hídricos Por conta do aumento da intensidade de chuvas, mananciais podem sofrer acúmulo de sedimentos, comprometendo a qualidade da água. No caso do Espírito Santo, 22% das cidades têm alto risco e 78% têm muito alto risco a esse problema, de acordo com levantamento do instituto Trata Brasil.

Na saúde e nas pessoas Segundo a UNICEF, no Brasil como um todo, as pessoas menores de idade atualmente enfrentam o dobro do número de dias de calor intenso que seus avós, e elas tendem a ser as maiores vítimas de mudanças climáticas, tendo uma maior incidência de inflamações respiratórias e alergias que podem decorrer de dias secos e quentes.

Histórico de iniciativas, metas e financiamentos internos Primeiras iniciativas registradas (2016–2023) O Espírito Santo tem diversas iniciativas internas voltadas para a adaptação e mitigação das mudanças climáticas. Em março de 2018, foi estabelecido o Centro de Estudos Climáticos Avançados do Espírito Santo, uma iniciativa conjunta do governo estadual (por meio da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes)), a Universidade Federal do Espírito Santo e a Vale. O investimento conjunto informado foi de mais de R$ 1,3 milhão.

Em setembro de 2021, o governo lançou na cidade de Vargem Alta o Fundo de Apoio Rural (FAR), do Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo (Bandes). O mecanismo foi criado para prestar auxílio a agricultores vítimas de eventos climáticos extremos, e a cidade foi escolhida para sediar o lançamento por ter sofrido com vendavais e granizo em março daquele ano. Com ele, essas pessoas terão acesso a linhas especiais de financiamento, que incluem carência de 36 meses e amortização em até 60 meses. O fundo será composto por recursos advindos do próprio estado, de repasses federais e municipais e de possíveis doações e convênios.

Em maio de 2023, o governo do Espírito Santo lançou o Programa Capixaba de Mudanças Climáticas, que prevê a coordenação e integração de ações e políticas públicas de mitigação e adaptação às mudanças climáticas. No mesmo ano, foi lançado o Plano de Descarbonização e Neutralização das Emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) do Espírito Santo, estabelecendo como meta a neutralização das emissões de GEE até 2050, com potencial de mitigação de até 7,7 milhões de toneladas de carbono até lá. Na época, o estado projetava a necessidade de pouco menos de R$ 5 bilhões para atingir 27% de redução até 2030. O plano foi criticado no Anuário Estadual de Mudanças Climáticas de 2025 por falta de clareza sobre os custos e benefícios das ações propostas, porque não teria envolvimento suficiente das comunidades locais e por não apresentar soluções específicas para enfrentar questões socioeconômicas locais.

Em novembro de 2023, o Palácio Anchieta (sede do governo estadual) sediou o evento pré-COP28 "Governança Climática e Financiamento Climático: caminhos para a implementação nos estados brasileiros", que reuniu autoridades e especialistas para discutir os efeitos das mudanças climáticas no Brasil.

2024 e a COP29 thumb|Mudanças do uso da terra no Espírito Santo (1985-2024) segundo dados do MapBiomas. Em maio de 2024, por meio do então Fundo Cidades (atualmente conhecido como Fundo Cidades-Adaptação), o estado tinha sob seu financiamento 76 obras autorizadas ou em execução em 29 cidades a um custo de mais de R$ 293 milhões, além de 161 projetos em andamento em 52 municípios. As intervenções eram geridas pelas prefeituras. O Fundo Cidades-Adaptação é uma medida de adaptação considerada inovadora, ainda que de resultados ainda incertos, e que foi replicada pelo governo federal na reconstrução das cidades atingidas pelas enchentes no Rio Grande do Sul em 2024.

Ao longo de 2024, o Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo (Bandes) financiou estudos para auxiliar empresas na adaptação e mitigação das mudanças climáticas. Em julho, em parceria com a startup local ECO55, ofereceu um "diagnóstico climático" para empresas clientes do banco, com a finalidade de proporcionar "valor sustentável" a eles, a ser medido pela influência da agenda climática em seus negócios. O estudo se propunha a analisar critérios como Inventário de Emissões de Gases de Efeito Estufa, Sustentabilidade Corporativa e Risco Climático Empresarial, com base em informações fornecidas pelas próprias empresas, e transformar as percepções em um relatório com potencial para guiar agendas de sustentabilidade.