Pretuguês, pretoguês ou língua de preto é o termo tradicionalmente usado, geralmente de forma pejorativa, para referir a forma peculiar como negros e afrodescendentes moradores e provenientes do antigo Império Português transformam, interpretam e falam a língua portuguesa, estando na origem das variantes africanas do português.

A partir da década de 1970, a ativista e professora brasileira Lélia Gonzalez denominou "pretuguês" um conceito linguístico e cultural da sua autoria que explora teoricamente em suas obras, que designaria a marca da africanização do português falado no Brasil, um fenômeno que reflete as profundas contribuições culturais africanas para a identidade brasileira.

Origem e significado O termo já é referido em 1524 pelo mulato Fernando della Frágoa de Amor, que encena um equívoco dueto bilingue, espanhol/«pretuguês», com uma aristocrata.

Em Angola, refere-se especificamente à denominação pejorativa dada pelos colonizadores portugueses à linguagem ou linguajar híbrido português/quimbundo utilizada pela população angolana,MACÊDO, T. O ’pretoguês’ e a literatura de José Luandino Vieira. ALFA: Revista de Linguística, São Paulo, v. 36, 2001. Disponível em: https://periodicos.fclar.unesp.br/alfa/article/view/3917. Acesso em: 17 dez. 2025 a qual acabaria por originar o actual português angolano.Nzau, D. G. N., Venâncio, J. C., & Sardinha, M. da G. d'Almeida. (2022). Em torno da consagração de uma variante angolana do português: subsídios para uma reflexão. Limite. Revista De Estudios Portugueses Y De La lusofonía, 7, 159-180. https://revista-limite.unex.es/index.php/limite/article/view/1489

Em Moçambique, tal como em Angola, os desvios à norma europeia da língua portuguesa e as línguas bantas foram considerados com desdém como «pretoguês».

Lélia Gonzalez A partir da década de 1970, Lélia Gonzalez começou a usar o termo Pretuguês para nomear a maneira particular pela qual a língua portuguesa é apropriada e transformada pelas populações afrodescendentes, criando um espaço de expressão e resistência cultural.

O conceito foi desenvolvido para servir como referencial, juntamente com a Amefricanidade, na compreensão das dinâmicas de resistência e reafirmação da cultura afrodescendente na América Latina. A pesquisa da autora sobre o conceito busca examinar como a cultura afrodescendente constrói identidades e ressignifica a língua no Brasil e em outros países latino-americanos.

O nome Pretuguês faz alusão ao contexto colonial, em que o colonizador chamava os africanos escravizados no Brasil de "pretos" (e os nascidos no Brasil de "crioulos").

Características linguísticas O Pretuguês se constitui pela africanização da língua portuguesa, sendo modificado pelos ritmos e tons das línguas africanas trazidas ao Brasil por populações negras escravizadas.

As influências das línguas africanas são notáveis no: Caráter tonal e rítmico: o Pretuguês incorpora o caráter tonal e rítmico das línguas africanas trazidas para o Novo Mundo, o que influenciou a musicalidade da fala em português no Brasil. Ausência de consoantes: essa africanização pode ser observada na ausência ou na transformação de certas consoantes, como o "L" ou o "R".

Gonzalez (2020) aponta que essa influência linguística é um aspecto, muitas vezes, pouco explorado na análise da formação histórico-cultural do continente como um todo.

Pretuguês como resistência cultural O Pretuguês é essencial para compreender de que modo os afrodescendentes na América Latina reconstruíram suas identidades, promovendo a ressignificação da língua e do território em resistência ao colonialismo.

A transformação linguística é vista como uma recriação ativa e transformadora, sendo um ato de subversão que integra elementos africanos nas línguas de domínio, em oposição à imposição cultural dos colonizadores. Lélia Gonzalez defendia que o Pretuguês é um testemunho vivo da resistência cultural e da capacidade de adaptação e criação das populações negras.

O conceito promove o fortalecimento da memória e da resistência afrodescendente, além de reforçar o papel central da cultura afrodescendente na formação da identidade latino-americana.

Extensão geográfica e negligência Lélia Gonzalez observou que o Pretuguês brasileiro possui raízes comuns com outras "afro-variações" linguísticas presentes nas Américas. Ela notou certas similaridades nos falares e manifestações culturais negras em outros países do continente americano. A mesma africanização ocorreu em outras línguas coloniais, como o espanhol, o inglês e o francês, falados na região caribenha, América Central e América do Sul.

Apesar de sua relevância, a influência do Pretuguês e as manifestações culturais e artísticas (como a música, a dança e os sistemas de crença) relacionadas a ele, são frequentemente obscurecidas pelo viés ideológico do branqueamento. Essas contribuições são muitas vezes recalcadas por classificações eurocêntricas como "cultura popular" ou "folclore nacional", que minimizam a importância da contribuição negra.

Bibliografia

Ver também Amefricanidade Lélia Gonzalez

Categoria:Diáspora africana Categoria:Sociolinguística Categoria:Dialetos da língua portuguesa