António Júdice Bustorff Silva (Ilha de São Tomé, 1895 – Lisboa, 17 de dezembro de 1979) foi um advogado e político português, deputado à Assembleia Nacional e Procurador à Câmara Corporativa durante o Estado Novo. Foi administrador de diversas empresas públicas e privadas portuguesas e coloniais, sendo amplamente recordado pela comunidade empresarial britânica em Portugal e por ter desempenhado um papel relevante nas relações luso-britânicas durante o século XX, tendo sido administrador da Shell. Foi amigo pessoal de Salazar e um dos mais acérrimos defensores da política do Estado Novo.
Biografia Primeiros anos e formação
António Júdice Bustorff Silva nasceu em 1895 na ilha de São Tomé, então colónia portuguesa, onde o seu pai possuía vastas plantações agrícolas. Estudou Direito na Universidade de Coimbra, concluindo a licenciatura durante o conturbado período do final da monarquia e do início da Primeira República Portuguesa.
Desde jovem, Bustorff foi um monárquico convicto, assistindo com alívio à tomada de poder pelos generais em 1926, após sucessivos governos republicanos que se sucederam em apenas dezasseis anos.
Carreira profissional
Conhecido simplesmente como Dr. Bustorff, exerceu as funções de presidente, diretor ou consultor jurídico de várias empresas britânicas de relevo em Portugal, nomeadamente os Carros Eléctricos de Lisboa e os Telefones de Lisboa e Porto, ambas então concessionadas a companhias britânicas.
Foi advogado em Lisboa até 1968, tendo sido membro do primeiro Conselho Geral da Ordem dos Advogados. Foi ainda membro do Tribunal Permanente de Arbitragem de Haia e vogal da Comissão Permanente de Direito Marítimo Internacional.
Até ao 25 de abril ocupou diversos cargos em empresas públicas e privadas, tendo sido Presidente das Assembleias Gerais da CP, Caminhos de Ferro de Cabinda, Fábrica de Cerâmicas Lusitana, Companhia Colonial de Navegação, Companhia Portuguesa Rádio Marconi e da Companhia Industrial Portugal e Colónias, Vice-presidente da Assembleia Geral do Banco de Lisboa e Açores e Presidente do Conselho de Administração da Companhia de Cazengo.
Foi também o representante legal da Família Real Portuguesa, e o seu contacto com António de Oliveira Salazar, igualmente de simpatias monárquicas, começou através da gestão dos assuntos da Casa de Bragança, da qual foi administrador, negociando com o Estado o rendimento e residência condignos ao novo Duque de Bragança. A relação de confiança entre ambos viria a revelar-se valiosa tanto para os seus clientes como para o Estado português.
Descrito como amigo pessoal de Salazar, foi na Assembleia Nacional um dos mais acérrimos defensores da política do Estado Novo. Foi deputado à Assembleia Nacional (IV, V e VI Legislaturas) e foi Procurador à Câmara Corporativa (VIII Legislatura) na qualidade de representante das entidades patronais do Grémio Nacional dos Bancos e Casas Bancárias, do qual era membro dos órgãos diretivos.
Embora admirador de Salazar e das suas políticas, Bustorff manteve sempre independência de juízo, aconselhando o primeiro-ministro de acordo com o que considerava compatível com os interesses simultâneos do cliente e do país.
Contribuição durante a Segunda Guerra Mundial
Durante a Segunda Guerra Mundial, Bustorff desempenhou um papel importante na cooperação entre Portugal e os Aliados. Representou o Governo Português na empresa criada para a exploração de urânio, após negociações iniciadas a pedido do Reino Unido, tendo sido administrador da Shell.
Foi igualmente assessor jurídico das Minas da Panasqueira, então propriedade britânica e a maior fonte de volfrâmio disponível para o Ocidente, frequentemente alvo de disputas entre os blocos económicos.
Pelos seus serviços, foi agraciado com o título honorário de Comandante da Ordem do Império Britânico (CBE), distinção de que se orgulhava profundamente.
Vida pessoal
Homem de grande energia e humor, Bustorff representou Portugal em várias conferências internacionais. Católico devoto, cultivava simultaneamente um espírito jovial e hospitaleiro.
O apelido Bustorff provém de um antepassado suíço que emigrara para Portugal no século XVII para escapar à perseguição religiosa contra católicos.
Falava fluentemente várias línguas, embora por vezes com erros pitorescos — era célebre a sua expressão em inglês “Come and see my Charolais veals, they are beauties!”, dirigida aos seus convidados britânicos na propriedade que possuía perto de Setúbal.
A sua paixão fora do trabalho era a construção e recuperação de casas antigas. Construiu ou restaurou uma para cada um dos seus cinco filhos e para cada dos seus 24 netos, entre Borba e Monseraz, tendo sido Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Borba em 1973.
Últimos anos
Quando ocorreu a Revolução de 25 de Abril de 1974, Bustorff já se encontrava praticamente reformado. Em 1975 deslocou-se ao Brasil, com 80 anos, para tratar de novos assuntos jurídicos, mas ali sofreu um acidente vascular cerebral. Regressou posteriormente a Portugal, onde permaneceu lúcido e ativo durante mais dois anos, exercendo funções como presidente da Fundação da Casa de Bragança e supervisionando propriedades não nacionalizadas.
Faleceu em Lisboa, a 17 de dezembro de 1979, aos 84 anos.
Legado
António Júdice Bustorff Silva é recordado como uma das figuras portuguesas mais pró-britânicas e influentes do século XX, ao lado do Marquês de Soveral, conhecido como o “Blue Monkey” nos tempos de Eduardo VII.
Bibliografia
Sir Peter Norton-Griffiths, The Times, 3 Janeiro 1980
Categoria:Advogados de Portugal Categoria:Advogados de Portugal do século XX