miniaturadaimagem|Lançamento ao mar da fragata União, a última da classe Niterói, no Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro (1975) O Programa Decenal de Renovação dos Meios Flutuantes (PDRMF) foi um plano de expansão da Marinha do Brasil aprovado em 1967 e executado até o final da década seguinte. Neste período a força naval incorporou seis fragatas da classe Niterói e três submarinos da classe Humaitá, de projeto britânico, seis navios varredores da classe Aratu, de projeto alemão, sete contratorpedeiros, sete submarinos e dois navios de desembarque de carros de combate de segunda mão dos Estados Unidos e outras unidades. Parte dos navios foram construídos no Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro e em estaleiros privados brasileiros. Em 1980, de 53 navios principais em serviço, 38% haviam sido incorporados na última década e 13% eram de construção brasileira.
A força naval existente antes do PDRMF era constituída em sua maioria de sobressalentes americanos da Segunda Guerra Mundial transferidos ao Brasil através do Acordo de Assistência Militar Brasil-Estados Unidos. A maior unidade era o porta-aviões leve Minas Gerais. Nos contextos da Guerra Fria e da ditadura militar, os equipamentos eram voltados à hipótese de defesa coletiva do hemisfério, sob a liderança dos EUA, defendendo as linhas de comunicação marítimas numa campanha antissubmarino, com atuação subsidiária na segurança interna. A "Guerra da Lagosta" revelou uma baixa disponibilidade dos meios navais, e o oficialato estava insatisfeito com a dependência operacional e logística nos EUA.
As decisões tomadas em 1967 de adquirir navios modernos, escolher projetos europeus e construir alguns deles no Brasil representavam uma guinada para a autonomia nos campos tecnológico e logístico, mas sem rompimento na concepção estratégica, que permanecia focada na guerra antissubmarino. Os contratos foram assinados nas gestões dos almirantes Augusto Rademaker (1967–1969) e Adalberto de Barros Nunes (1969–1974) no Ministério da Marinha, durante o milagre econômico brasileiro, e as principais entregas ocorreram de 1971 a 1980.
O cumprimento apenas parcial das metas já foi um salto tecnológico. A Marinha do Brasil entrou na era dos mísseis, mudou seus procedimentos de aquisição e a formação do oficialato, reavivou a construção naval militar, incorporou os primeiros blindados do Corpo de Fuzileiros Navais, generalizou o uso de helicópteros e, com os sistemas táticos e de direção de tiro da classe Niterói, operou os primeiros computadores de tempo real no país. O ano de 1980 foi a culminação de um dos ciclos históricos de quatro décadas de expansão e recolhimento da frota. O programa naval seguinte encontraria condições de investimento piores e a política de aquisições voltou a incluir as compras de oportunidade de navios de segunda mão.
Condicionantes A força naval dos anos 1960 miniaturadaimagem|Porta-aviões leve Minas Gerais e contratorpedeiro Marcílio Dias|esquerda A frota brasileira em meados dos anos 1960 era composta principalmente de navios veteranos da Segunda Guerra Mundial, em tendência de declínio numérico e obsolescência. As maiores unidades eram o navio-aeródromo (porta-aviões) leve Minas Gerais, lançado ao mar para a Marinha Real Britânica em 1944, e os cruzadores leves Barroso e Tamandaré, da classe Brooklyn, lançados para a Marinha dos Estados Unidos em 1936–1938. O porta-aviões, ex-HMS Vengeance, foi modernizado em 1957–1960. Devido a uma disputa com a Força Aérea Brasileira (FAB), a Aviação Naval limitava-se a helicópteros. O complemento de aviões P-16 Tracker do Minas Gerais era operado pela FAB., "Aviação Naval".
Apesar do valor simbólico desses navios, a espinha dorsal da frota eram os contratorpedeiros. Nas décadas anteriores, o Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro (AMRJ) construiu três da classe Marcílio Dias (1943), de planos americanos, e seis da classe Amazonas, de planos britânicos (1949–1960). A Marinha americana transferiu oito contratorpedeiros de escolta da classe Cannon, designada Bertioga no Brasil, em 1944–1945, e sete contratorpedeiros da classe Fletcher ("classe P") a partir de 1959., "O Programa de Ajuda Militar". Nove contratorpedeiros das classes anteriores estavam em serviço em 1965, não contando cinco da classe Bertioga, agora classificados como avisos oceânicos. Outra transferência notória de sobressalentes americanos foram os onze submarinos das classes Fleet Type e Guppy a partir de 1957. O Centro de Adestramento Almirante Marques de Leão (CAAML) recebeu equipamentos de adestramento antissubmarino simulado.
Também foram incorporados nos anos 1950 e 1960 dez corvetas da classe Imperial Marinheiro, quatro navios de transporte de tropa, dois navios hidrográficos, três navios-tanque, quatro navios varredores (a classe Javari) e um navio-oficina, o Belmonte (G-24). O Corpo de Fuzileiros Navais (CFN) iniciou seus exercícios anfíbios e começou a organizar seu primeiro batalhão de infantaria em 1958.
Lista de embarcações (1965) A Marinha somava 71 embarcações em serviço em 1965:
Desempenho observado miniaturadaimagem|Cruzador Tamandaré com quatro contratorpedeiros A operabilidade desta frota foi posta à prova nos primeiros meses de 1963, na chamada "Guerra da Lagosta". Um contratorpedeiro da Marinha da França aproximou-se do litoral nordestino para assegurar a atividade de navios lagosteiros franceses. O Brasil não aceitava a extração francesa da lagosta na sua plataforma continental e mobilizou forças aéreas e navais. O Almirantado logo se deu conta que não tinha uma "pronta resposta" a dar: muitos navios estavam indisponíveis, e aos outros faltavam sobressalentes, munição e mesmo suprimentos não militares. O cruzador Barroso, por exemplo, saiu ao mar com só quatro das oito caldeiras funcionais, uma das quais apresentou um tubo perfurado no caminho, e nenhuma munição para os canhões principais de 153 milímetros. A "guerra" seria concluída sem qualquer tiro e o contratorpedeiro francês deixou a área.
Segundo um relatório da Central Intelligence Agency americana de 1973, "a Marinha do Brasil é uma das maiores marinhas na América do Sul. Ela é capaz de defender o país e sua navegação de ataques pelo mar de qualquer país vizinho mas poderia oferecer pouco mais do que resistência simbólica a uma força naval moderna de tamanho comparável". Sua "capacidade geral é limitada por navios e equipamentos obsoletos, falta de verbas e dependência em fontes estrangeiras para muitos itens materiais. A maioria dos navios combatentes são da Segunda Guerra, mas um ambicioso novo programa de construção deve substituir ou suplementar os navios mais antigos nos anos 1970".
O efetivo, continua o relatório, era de cerca de 46 500 homens (3 500 oficiais e 43 000 praças), incluindo 13 000 fuzileiros navais. Eram "bem treinados e tecnicamente qualificados mas muitos carecem de experiência prática". A moral era "normalmente muito boa", apesar das reclamações de salários inferiores ao setor civil. Os praças eram formados em sua maior parte nas Escolas de Aprendizes-Marinheiros, e os oficiais, na Escola Naval. Os treinos embarcados consistiam basicamente em viagens curtas a partir do Rio de Janeiro e alguns exercícios com a Marinha dos EUA. A obrigação de compensar o serviço embarcado por mais de trinta dias encurtava as viagens, e a prática de tiro era limitada pela escassez de munição.
O grosso da frota era sediado em Rio de Janeiro, com os navios-varredores em Aratu, na Bahia, e outras embarcações menores em Ladário, Belém e Natal. O principal estaleiro era o AMRJ. A falta de bases fora do Rio de Janeiro, "um dos portos de água profunda com a melhor proteção natural do mundo", dificultava as operações. As bases do Rio de Janeiro, Belém e Aratu tinham diques secos capazes de receber os maiores navios. A qualquer momento a Marinha dispunha de aproximadamente trinta dias de suprimento e combustível. A Esquadra poderia manter-se em velocidade de cruzeiro de 14 ou 16 nós sem reabastecimento por cinco dias, ou vinte dias com apoio logístico. Os depósitos em ilhas da Baía de Guanabara tinham capacidade para 56 mil toneladas de combustível. As "capacidades de guerra antissubmarino têm sido limitadas por equipamento obsolescente mas são geralmente consideradas boas". O CFN era moderadamente bem treinado para os padrões americanos, mas a Esquadra carecia de meios anfíbios para um desembarque de mais de um batalhão de uma vez.
Missões da Marinha miniaturadaimagem|Exercício de desembarque anfíbio de fuzileiros navais (1964)|esquerda A guerra na qual pensavam os estrategistas navais seguiria a bipolaridade da Guerra Fria, com os blocos ocidental e oriental, respectivamente liderados pelos EUA e a União Soviética, entrando em guerra convencional. O Brasil integraria o sistema de defesa coletiva do continente americano, sob a liderança dos EUA através do Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR) e da Organização dos Estados Americanos (OEA). A percepção de ameaça vinda da América do Sul era baixa. O inimigo viria pelo Atlântico, tendo em vista a experiência da Segunda Guerra e o crescimento da Esquadra soviética. As referências intelectuais eram tradicionais pensadores navais americanos e teóricos geopolíticos brasileiros da Escola Superior de Guerra. Para a Marinha, o maior interesse geoestratégico residia no Norte e no saliente nordestino.
Dentro desta hipótese, presumia-se que a União Soviética e seus aliados ameaçariam as linhas de comunicação marítimas e portos no Atlântico Sul com submarinos, navios de superfície e forças especiais. Submarinos atacariam o comércio marítimo e ações de minagem bloqueariam os portos e terminais. O Brasil seria especialmente vulnerável por depender da importação marítima de petróleo., "O Programa Decenal de 1967". As marinhas periféricas como a brasileira deveriam, portanto, resistir à imensa força de submarinos do bloco soviético, dentro de uma estratégia defensiva de contenção. Nisto também se enquadrava uma hipótese subsidiária: impedir Cuba ou outros aliados soviéticos de transportar armamento a guerrilheiros brasileiros pelo mar.
Tal era o foco na ameaça submarina que o almirante Mário César Flores falaria numa "síndrome antissubmarino". Para este tipo de operação, a Esquadra formaria um Grupo de Caça e Destruição, com um porta-aviões escoltado por contratorpedeiros. Um grande número de navios de escolta era necessário para não desproteger o comboio quando alguns deles fossem enviadas para a caça e destruição de um submarino detectado. A FAB proveria apoio aéreo. Os submarinos brasileiros serviam de instrumento para adestrar as tripulações de superfície. Dentro desta linha também serviriam a guerra de minas e as atividades de oceanografia e meteorologia, cujas funções não eram somente científicas. Os cruzadores possivelmente responderiam a incursões da esquadra soviética de superfície., Parte 2.
A Guerra Fria também direcionava os militares para a segurança interna e ação anticomunista, missões que pouco valorizavam o poder naval. A ditadura militar no poder desde 1964 usava as Forças Armadas na prevenção e repressão a focos de guerrilha. Em regiões negligenciadas pelo Estado — no caso da Marinha, nas vias fluviais — a população era assistida e controlada por ações cívico-sociais. Na repressão direta, a participação da Marinha era menor, essencialmente através do Centro de Informações da Marinha (Cenimar) e do Corpo de Fuzileiros Navais. Destoando da concepção estratégica defensiva, os fuzileiros navais eram destinados ao assalto anfíbio, uma operação ofensiva. Seus exercícios presumiam desembarques contra regiões dominadas por insurgentes ou tropas sublevadas. Em terra, sua doutrina seguia os postulados do Exército para o combate à "guerra revolucionária".