Polilaminina ou polyLM é uma forma estabilizada de laminina, uma proteína fundamental para o desenvolvimento e a recuperação do sistema nervoso. Foi desenvolvida inicialmente pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, que vendeu suas patentes à empresa farmacêutica brasileira Cristália.

Apesar da ausência de testes clínicos que comprovem sua segurança e eficácia, a polilaminina ganhou repercussão no Brasil ao ser divulgada pela Cristália como tratamento seguro e eficaz para lesões medulares. Cientistas e sociedades científicas brasileiras alertaram sobre a divulgação preliminar e exagerada da substância.

Histórico A polilaminina surgiu a partir de descobertas sobre a proteína laminina, que remontam a meados da década de 1980. Em 1985, pesquisadores como Peter Yurchenco e colegas demonstraram que a laminina, uma glicoproteína essencial da matriz extracelular, possuía a capacidade intrínseca de se autopolimerizar em solução sob pH neutro, embora tal processo exigisse uma concentração de proteína relativamente alta. Em 1991, os cientistas Kalb e Engel observaram que essa polimerização poderia ocorrer em concentrações muito mais baixas se a proteína estivesse em contato com superfícies de bicamadas lipídicas carregadas negativamente. A laminina é uma proteína encontrada naturalmente no corpo, e é fundamental para o desenvolvimento e a recuperação do sistema nervoso.

A criação da polilaminina como é atualmente conhecida ocorreu no laboratório da pesquisadora Tatiana Sampaio, na Universidade Federal do Rio de Janeiro. A equipe investigou a hipótese de que as cargas negativas nas superfícies lipídicas criavam um microambiente ácido que disparava a agregação da proteína. Em um estudo recebido para publicação em maio de 1999 e publicado em janeiro de 2000, Sampaio, juntamente com Elisabete Freire, demonstraram que a simples acidificação do meio para pH 4 induzia a polimerização instantânea da laminina, independentemente de altas concentrações de proteína ou da presença de superfícies lipídicas.

O polímero biomimético estável produzido em laboratório recebeu o nome de polilaminina (polyLM) para designar especificamente essa forma induzida por ácido. Os pesquisadores descobriram que esse complexo reconstituído possui exatamente a mesma estrutura de rede de pesca das assembleias de laminina que ocorrem naturalmente nos tecidos vivos, como na membrana basal. Diferente da laminina extraída de tecidos que perde sua estrutura original, a polilaminina consegue recapitular a organização supramolecular necessária para sinalizar corretamente às células.

Ao longo de mais de 25 anos, os estudos da polilaminina evoluiram da observação bioquímica inicial para testes funcionais complexos. Verificou-se que a estrutura poligonal do polímero é mantida por interações eletrostáticas e é estável mesmo quando a substância é transferida de volta para um ambiente de pH neutro ou meios de cultura celular. Em 2010 foram publicados resultados demonstrando que a injeção local de polilaminina promovia a regeneração e recuperação motora em ratos com lesão medular, algo que a laminina comum não era capaz de fazer. Em entrevistas à imprensa, Sampaio afirmou que testes posteriores com cães e um estudo piloto com seres humanos indicaram o potencial da polilaminina para restaurar funções motoras em pacientes com lesões medulares agudas.

A polilaminina foi comercializada pela UFRJ em 2022. Os três milhões de reais obtidos foram divididos entre a universidade, os inventores e o Instituto de Ciências Biológicas da UFRJ. No mesmo ano a empresa farmacêutica brasileira Cristália registrou as patentes relacionadas à substância.

Bioquímica e produção A formação da polilaminina ocorre por meio da polimerização induzida por pH. Quando a laminina-111 é exposta a um ambiente ácido (pH aproximado de 4,0), as moléculas sofrem uma transição conformacional que permite a auto-montagem em polímeros estáveis.

Propriedades e efeitos biológicos O estado polimerizado da polilaminina é sua principal característica, essencial para disparar sinais celulares de regeneração, algo que a laminina em sua forma simples e monomérica não é capaz de realizar de forma eficaz em lesões graves. Diferente da laminina, a polilaminina é estável e capaz de formar uma rede tridimensional, podendo servir como suporte para o crescimento nervoso.

A polilaminina demonstra alta , o que lhe permite desempenhar papel de suporte para diversos tipos celulares essenciais na terapia regenerativa. Testes laboratoriais confirmam que ela permite a adesão e o crescimento neurônios, estimulando a neuritogênese, ou seja, a formação de novos prolongamentos nervosos; de células de schwann, fundamentais para a isolação e reparo de nervos e também de células-tronco mesenquimais, utilizadas em pesquisas para reconstrução de tecidos.

Recepção A substância se tornou popular no Brasil após a farmacêutica Cristália anunciar a produção da polilaminina em setembro de 2025 e alegar que a substância é segura e eficaz para tratar lesões medulares. Em fevereiro de 2026, Tatiana Sampaio, professora da UFRJ e consultora da empresa, concedeu várias entrevistas promovendo a substância como tratamento potencial para lesões medulares e anunciou o início da fase 1 dos testes clínicos. Apesar da ausência de publicações revisadas por pares que confirmassem as alegações de Sampaio e da empresa, a divulgação levou ao aumento nos casos de judicialização para uso compassivo da substância.

Em março de 2026, Sampaio confirmou que a publicação dos resultados, que haviam sido divulgados na forma de pré publicação, foi rejeitada por três revistas científicas, mas insistiu que a substância é eficaz. O médico Paulo Louzada, coautor da pré publicação, afirmou que o estudo tem falhas metodológicas como a ausência de grupo controle, viés de confirmação, amostra pequena e falta de teste do reflexo bulbocavernoso.

A substância foi comparada por Marcelo Yamashita à fosfoetanolamina, devido ao hype promovido pela imprensa após as entrevistas de Sampaio sobre o composto e à ausência de estudos que comprovem sua eficácia em humanos. Alicia Kowaltowski alertou que a "torcida antecipada" era perigosa ao desviar os esforços de estudos embasados.Carlos Orsi considerou que 85 % das substâncias analisadas em testes clínicos são descartadas e que os elogios excessivos à substância seriam irresponsáveis e até desonestos, dada a falta de estudos controlados. Orsi comparou o caso com a fosfoetanolamina, a cloroquina e a ivermectina e alertou que o "clima de copa do mundo", a criação de expectativas prematuras e a comoção pública em torno do caso podem levar a desdobramentos como o uso indiscriminado, a politização e a judicialização de aspectos técnicos. Ele também considerou que o caso causa prejuízos à no Brasil e pode até levar ao negacionismo.Natalia Pasternak declarou que a empresa e a pesquisadora fizeram publicidade sem dados.

Em um editorial conjunto da SBPC com a ABC, Francilene Garcia, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, e Helena Nader, presidente da Academia Brasileira de Ciências, afirmaram que o caso da polilaminina, situando-se no campo da neuroregeneração como proposta ainda experimental, extrapola a dimensão científica e envolve implicações institucionais, regulatórias e de política de inovação. As sociedades científicas ressaltaram também que a trajetória da polilaminina expõe tensões estruturais do sistema brasileiro de ciência, tecnologia e inovação, especialmente quanto à validação científica, à gestão da propriedade intelectual, à comunicação pública e à articulação entre pesquisa, regulação e políticas de saúde, destacando a necessidade de rigor metodológico, governança científica e cautela na construção de expectativas sociais sobre tecnologias biomédicas emergentes.

Embora alguns pacientes que receberam a polilaminina no estudo piloto tenham recuperado os movimentos em algum grau, não é possível associar a recuperação à polilaminina com segurança. "Não tem nenhum caso em que você pode inferir que foi a medicação que fez isso. Nós não sabemos nem a dose", afirmou Osmar Moraes, presidente da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia (SBN). O neurocirurgião também argumentou que até o momento não há dados que justifiquem a aplicação da polilaminina.

A Academia Brasileira de Neurologia enfatizou a necessidade de mais ensaios clínicos como pré-requisito para a prescrição médica da substância.

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