A crise política na Geórgia refere-se a uma crise institucional, constitucional, política e social que afeta a Geórgia desde 28 de outubro de 2024, dia em que foram anunciados os resultados das eleições parlamentares, dando a vitória ao partido no poder, Sonho Georgiano, que obteve a maioria no parlamento, os resultados não foram reconhecidos pelas principais coligações da oposição e pela presidente Salome Zurabishvili, que apontaram que a votação estava repleta de irregularidades, levando a uma disputa sobre a legitimidade das eleições e das principais instituições do país. A crise agravou-se com a autoconvocação do parlamento, que deveria ter sido convocado anteriormente pela presidente conforme a constituição, e pela decisão do partido governante de suspender os preparativos para as negociações de adesão à União Europeia, o que foi visto como contrário ao Artigo 78 da Constituição da Geórgia. A crise entrou numa nova fase com a eleição de um novo presidente (Mikheil Kavelashvili) pela Assembleia Eleitoral da Geórgia para substituir Zurabichvili e a sua posse em 29 de dezembro de 2024 pela sessão autoconvocada do Parlamento em disputa. Salome Zourabichvili declarou no mesmo dia e durante as semanas seguintes que ela permanecia como presidente da Geórgia.
Como resultado, desde outubro de 2024, o país passa por uma intensa jornada de protestos populares contra o partido no poder, com centenas de manifestantes presos, espancados ou torturados pela polícia e pelos grupos violentos afiliados ao partido governante, que também atacaram jornalistas.
Contexto político na Geórgia Em 2024, o ex-primeiro-ministro e bilionário Bidzina Ivanishvili era amplamente visto como o governante de facto da Geórgia, com a maioria dos funcionários e instituições do governo georgiano seguindo suas ordens, com exceção da presidente Salomé Zurabichvili, que manteve suas posições independentes. No final de dezembro de 2024, o cientista político Stephen F. Jones afirmou que Ivanishvili havia se tornado "o governante irresponsável e descontrolado" da Geórgia.
Antes das eleições parlamentares de outubro de 2024, em 2023 e novamente em abril de 2024, o Sonho Georgiano propôs duas versões sucessivas de uma lei sobre agentes estrangeiros em relação a organizações não governamentais que recebem financiamento estrangeiro. Ambas as versões foram controversas, levando a sucessivas fases de protestos de rua em oposição à lei e enfraquecendo significativamente o apoio popular ao Sonho Georgiano.
Neste ínterim, Ivanishvili declarou que desejava uma maioria de três quartos no parlamento para que o Sonho Georgiano pudesse implementar mudanças constitucionais para "banir a oposição".
Eleições parlamentares em outubro de 2024 Em 26 de outubro de 2024, foram realizadas eleições parlamentares na Geórgia para eleger os 150 membros do parlamento nacional. Essas eleições foram disputadas entre o oficialismo que buscava fortalecer os laços com a Rússia e uma coalizão de oposição que buscava estreitar os laços com a União Europeia e os Estados Unidos. Nessas eleições, o partido Sonho Georgiano buscava um quarto mandato.
Em 27 de outubro, com 99% dos votos contados, os resultados da Comissão Eleitoral Central (CEC) declararam o Sonho Georgiano vencedor, tendo conquistado 90 das 150 cadeiras no parlamento com 53,92% dos votos. Em segundo lugar ficaram os partidos da oposição com um total combinado de 37,77% dos votos.
A oposição recusou-se a reconhecer os resultados oficiais, alegando fraude e denunciou que o processo eleitoral estava repleto de irregularidades, acusações que foram apoiadas pela presidente, Salomé Zourabishvili, que criticou as eleições e rejeitou os resultados oficiais.
Grandes protestos de rua ocorreram diariamente após a eleição, juntamente com repressão policial.
Crise parlamentar Autoconvocação do Parlamento O novo parlamento realizou sua sessão inaugural em 25 de novembro, com a presença de apenas 88 parlamentares do Sonho Georgiano. A presidente Zurabichvili boicotou a sessão, enquanto os protestos continuavam do lado de fora do prédio do parlamento. Os especialistas constitucionais afirmam que o auto-empossamento do parlamento sem que o presidente tenha convocado a sessão viola a Constituição, questiona a legitimidade do parlamento e o classifica de "tomada de poder". Segundo a Constituição da Geórgia, é tarefa da presidente convocar a sessão inaugural do parlamento. Ela se recusou a fazê-lo porque rejeitou os resultados das eleições como fraudados e questionou a legitimidade do parlamento. A presidente Zurabichvili considerou a convocação do parlamento como "inconstitucional", enquanto o presidente do parlamento, Shalva Papuashvili, acusou Zurabichvili de violar a constituição, alegando que, segundo a mesma, o novo parlamento deve ser convocado no máximo dez dias após o anúncio oficial dos resultados pela Comissão Eleitoral Central.
Quarenta membros da equipe do Gabinete do Defensor Público da Geórgia publicaram uma carta aberta protestando contra a presença do Defensor Público na abertura do Parlamento, que havia sido convocado por sua própria iniciativa. Advogados e ativistas de direitos humanos declararam que o Artigo 86(5a) do Regimento Interno Parlamentar impede que os eleitos iniciem seus mandatos se o Tribunal Constitucional estiver analisando disputas judiciais relacionadas à eleição. A carta afirmava que convocar o Parlamento por sua própria iniciativa "violava a ordem constitucional e legal, enfraquecia o papel do Defensor Público como órgão constitucional independente e corroía a confiança na instituição". Levani Ioseliani, o Defensor Público, afirmou que "a convocação do Parlamento da Geórgia foi inteiramente legítima, de acordo com o Artigo 38 da Constituição".
Suspensão de 49 deputados Em 5 de fevereiro de 2025, a Comissão de Assuntos Processuais e Regimento do Parlamento da Geórgia apoiou o projeto de lei para suspender as credenciais de 49 deputados de três coligações de oposição que se recusaram a reconhecer os resultados das eleições parlamentares realizadas em 26 de outubro, deixando os seus assentos parlamentares vacantes.
Crise presidencial Eleições presidenciais de 2024 As eleições presidenciais foram realizadas em 14 de dezembro para eleger um novo presidente para substituir Zurabichvili. Como resultado de uma reforma constitucional aprovada pelo parlamento em 2017, esta foi a primeira eleição em que o presidente não foi eleito por voto popular, mas sim escolhido por um colégio eleitoral recém-criado, composto por 300 delegados, incluindo os 150 deputados, os 20 representantes do Conselho Supremo da República Autônoma da Abecásia, os 21 membros do Conselho Supremo da República Autônoma da Adjara e 109 eleitores representando órgãos de autogoverno, alocados aos partidos proporcionalmente ao seu apoio nas eleições locais. As coligações de oposição rejeitaram a legitimidade das eleições e recusaram-se a participar, nenhum outro candidato participou na eleição para competir contra o titular Mikheil Kavelashvili, todos os 69 delegados da oposição não compareceram, e três membros do Conselho Supremo da Abecásia disseram que não votariam em Kavelashvili, resultando num total de apenas 224 eleitores. O anúncio dos resultados foi lido pelo chefe da Comissão Eleitoral, Giorgi Kalandarishvili, que indicou que o candidato do Sonho Georgiano, Mikheil Kavelashvili, tinha vencido a eleição presidencial com um total de 224 votos, tornando-se assim o presidente eleito da Geórgia. Foi a primeira eleição na história da Geórgia a ter apenas um candidato na cédula, uma redução drástica dos 65 candidatos na última eleição presidencial em 2018.
Enquanto a votação ocorria dentro do parlamento, centenas de manifestantes da oposição se reuniram do lado de fora, no início da manhã, para expressar sua rejeição às eleições. Os manifestantes consideraram um "insulto" o fato de o candidato do Sonho Georgiano ser um ex-jogador de futebol profissional sem formação superior. Alguns manifestantes exibiram seus diplomas universitários em frente ao parlamento e outros chutaram bolas de futebol. Para evitar incidentes, a polícia fechou as ruas adjacentes por onde os deputados acessavam a legislatura e utilizou canhões de água. Salome Zurabichvili, que participou da manifestação na Avenida Rustaveli, garantiu à mídia e aos manifestantes que "nada está acontecendo, ninguém elegeu ninguém, nada aconteceu". Ela reiterou que não renunciará até que outra eleição seja realizada.
Posse de Kavelashvili Em 29 de dezembro, Kavelashvili foi empossado como novo presidente da Geórgia durante uma cerimônia de posse a portas fechadas no Parlamento de Tbilisi. Em seu discurso de posse, Kavelashvili apelou à unidade: "Nossa história demonstra claramente que, após inúmeras lutas para defender nossa pátria e nossas tradições, a paz sempre foi um dos principais objetivos e valores do povo georgiano." Enquanto a posse de Kavelachvili acontecia, centenas de manifestantes protestavam em frente ao parlamento para mostrar sua oposição ao seu governo, com oponentes assobiando e mostrando cartões vermelhos em referência à sua carreira como ex-jogador de futebol, Por seu lado, a presidente cessante, Salomé Zurabichvili, deixou o palácio presidencial e juntou-se aos seus apoiantes, onde declarou: "Sou a única presidente legítima da Geórgia (...) Nada mudou, quer eu esteja na residência ou não. Esta residência presidencial era um símbolo enquanto um presidente legítimo estava nela." Os protestos contra a tomada de posse levaram a confrontos com a polícia que terminaram com a prisão violenta de seis manifestantes.
Em 9 de janeiro de 2025, Zourabichvili realizou uma coletiva de imprensa em seu novo escritório na Rua Chovelidze, afirmando que continuaria trabalhando para resolver a crise, reunindo-se com políticos georgianos e líderes internacionais. Afirmou que compareceria à posse de Donald Trump e realizaria reuniões de alto nível em Washington D. C.. Ela descreveu o estado georgiano como "virtualmente à beira do colapso", com um partido e uma pessoa no controle. Declarou que ainda era presidente e permaneceria assim até que novas eleições pudessem ser realizadas. Em 17 de janeiro, chegou a Washington. No dia seguinte, ela se encontrou com o Secretário de Estado Marco Rubio, do novo governo Trump, o novo Secretário de Defesa Pete Hegseth, e Donald Trump Jr. bem como representantes do Instituto Republicano Internacional.
Suspensão da adesão à UE O anúncio feito por Kobakhidze, em 28 de novembro, de suspender as negociações de adesão à UE foi amplamente considerado inconstitucional, com duzentos funcionários do Banco Nacional da Geórgia declarando que a suspensão era inconsistente com o Artigo 78 da Constituição. Uma nova onda de protestos seguiu-se.
Ver também Crise política na Geórgia em 2020–2021
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