Ernesto Batista Mané Júnior (João Pessoa, 15 de março de 1983), é um físico, diplomata e escritor brasileiro e guineense. Formado em Física pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), é doutor em Física Nuclear pela Universidade de Manchester, no Reino Unido, e desenvolveu pesquisas no CERN, na Suíça, e em outros centros de referência mundial. Desde 2014, integra o corpo diplomático do Ministério das Relações Exteriores do Brasil.

Em 2019 foi incluído na lista dos 100 afrodescendentes mais influentes do mundo pelo MIPAD (The Most Influential People of African Descent) e, em 2026, na lista dos 101 brasileiros que constroem o futuro do Brasil, do jornal O Globo. É Primeiro-Secretário na Embaixada do Brasil na Argentina desde 2025.

Também é autor do livro Antes do início, publicado pela Tinta-da-China Brasil em 2025, que garantiu sua participação na programação principal da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) 2026.

Vida pessoal Ernesto nasceu em João Pessoa, Paraíba, filho de Solange de Fatima de Oliveira Porto, contadora e servidora pública brasileira, e de Ernesto Batista Mané, economista e professor oriundo da Guiné-Bissau, país africano. Passou os primeiros anos de vida em São Paulo, no Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo (Crusp), enquanto seu pai cursava economia na Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo (FEA-USP).

Tem três irmãos, com quem cresceu, além de outros irmãos por parte de pai, residentes em João Pessoa, Cabo Verde e Guiné-Bissau.

Entre 1990 e 1993, cursou o ensino fundamental no Instituto Presidente Epitácio Pessoa (IPEP), em João Pessoa. De 1994 a 1997, completou o restante do ensino fundamental no Colégio Central de Aulas (CA). No ano seguinte, estudou no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Paraíba (IFPB), onde concluiu o ensino médio entre 1998 e 2000 e, simultaneamente, o curso técnico em Informática entre 1999 e 2001.

Em razão do abandono do pai, Ernesto empreendeu uma busca por suas raízes africanas entre 2010 e 2011, quando viajou para a Guiné-Bissau. Na ocasião, conheceu a família paterna. A experiência, bem documentada em um diário de viagem, inspirou uma densa reflexão sobre família, pertencimento e identidade negra em meio à diáspora africana, que culminou na estreia literária do físico e diplomata, o livro Antes do início, publicado pela editora Tinta-da-China Brasil.

Foi casado com Ana Beatriz Ribeiro Barros Silva (2007–2009) e, desde 2018, é casado com Janina Budi, com quem tem dois filhos.

Formação acadêmica Graduou-se em Física pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) em 2005. No mesmo ano, iniciou o doutorado na Universidade de Manchester, no Reino Unido, com pesquisa realizada no CERN, defendendo a tese High resolution laser spectroscopy of radioactive isotopes using a RFQ cooler-buncher at CERN-ISOLDE, finalizado em 2009.

Realizou dois pós-doutorados: um no Laboratório Nacional de Física de Partículas do Canadá (TRIUMF), onde pôde trabalhar com o aperfeiçoamento da espectroscopia a laser de radioisótopos com armadilhas de Paul e com espectrometria de massa de alta precisão utilizando armadilhas de Penning. Sua principal contribuição foi a medida do raio de carga do isótopo 74Rb, utilizado para o teste da unitariedade da matriz CKM. O outro ocorreu na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, onde pesquisou reatores nucleares navais sob a supervisão de Frank von Hippel e ministrou o curso Unmaking the Bomb, em conjunto com o professor Alexander Glaser, co-diretor do Programa de Ciência e Segurança Global, iniciativa que garantiu a oportunidade.

Carreira diplomática Entre 2012 e 2014, foi bolsista do Programa de Ação Afirmativa para Afrodescendentes do Instituto Rio Branco, academia diplomática do Brasil e uma das mais antigas do mundo, após ser aprovado em quarto lugar no seletivo de admissão.

Em 2018, participou da UN Disarmament Fellowship, programa das Organização das Nações Unidas sobre desarmamento, sendo, até aquele momento, o sétimo diplomata brasileiro a integrar a iniciativa desde sua criação na década de 1970. Durante o programa, viajou por três meses por diversos países da Europa, Ásia e Estados Unidos.

Serviu como diplomata na Embaixada do Brasil em Washington, nos Estados Unidos. Desde 2025, atua como Primeiro-Secretário na Embaixada do Brasil na Argentina.

Ernesto é fluente em quatro idiomas: inglês, espanhol, francês e alemão.

Produção literária Em 2025, Ernesto Mané lançou seu primeiro livro, Antes do início, pela editora Tinta-da-China Brasil. A obra mescla elementos de memória familiar, ciência e ancestralidade, explorando temas como negritude, deslocamento, identidade e pertencimento. O lançamento ocorreu no dia 3 de setembro de 2025, Livraria Tapera Taperá, em São Paulo, e desde então, a publicação vem recebendo atenção significativa da crítica especializada e da imprensa. esquerda|425x425px|thumb|Ernesto Mané e José Henrique Bortoluci no lançamento de Antes do início em São Paulo. A revista IstoÉ destacou que o livro “reflete sobre as diferentes formas de pertencimento racial e cultural”. A matéria salienta um dos pontos centrais da narrativa: os dilemas identitários enfrentados por Mané ao lidar com o racismo no Brasil e, em contraste, ao ser chamado de branco na Guiné-Bissau, país de seus ancestrais paternos, em razão de seu modo de vestir e se portar.

Críticos e escritores compararam a abordagem do autor à de nomes consagrados da literatura afro-diaspórica e africana contemporânea. Segundo o escritor Kalaf Epalanga, autor de Também os brancos sabem dançar, a grande tragédia africana é narrada na mesma frequência de autores como Ta-Nehisi Coates ou Mia Couto.

A Gazeta Mercantil descreveu a obra como “um convite para refletir sobre a distância geográfica e cultural que o Atlântico impôs”.

A jornalista Luana Avelar, no jornal O Hoje, afirmou que Antes do início “é mais do que um relato autobiográfico. É uma travessia entre continentes, tempos e afetos, marcada por memórias fragmentadas, desconfortos culturais e o reencontro com uma história familiar soterrada por ausências”.

No portal Resenhando, o jornalista e escritor Helder Moraes Miranda observou que “Ernesto Mané não se contenta em ser um sobrevivente da meritocracia. Quer ser ponte”.

Reinaldo José Lopes, na Folha de S.Paulo, sintetizou que "o 'diário de viagem' do autor registra a raiva e o pesar dos parentes, bem como a visão mais amarga que ele desenvolve em relação ao pai, com honestidade e crueza". Mané também foi ouvido pelo podcast Ilustríssima Conversa, do mesmo jornal, onde pôde contar o porquê de ter publicado o diário definitivo da viagem à Guiné-Bissau quase 15 anos depois.

Além da Ilustríssima Conversa, Mané concedeu entrevistas sobre o livro a outros podcasts: ao 451 MHz, da Associação Quatro Cinco Um, em conversa com a escritora Bianca Santana sobre os pontos de contato entre o romance dela, Apolinária, e Antes do Início; ao Fio da Meada, da Rádio Novelo, no episódio "Ernesto Mané tenta fazer as pazes com o pai e o passado"; e ao podcast português Na Terra dos Cacos, no episódio "A jornada de um diplomata brasileiro para se tornar guineense".

Na Revista Raça, a jornalista Rachel Quintiliano descreveu a obra como um texto que transita entre crônica, autobiografia e "escrevivência", conceito de Conceição Evaristo. Para ela, "Antes do Início é um livro sobre voltar mesmo quando isso parece impossível. Um texto que transforma a memória em território e a palavra em travessia".

Já Marleth Silva, no jornal Valor Econômico, destacou a combinação entre ciência e sensibilidade que marca a obra do autor:“Diante de grandes desafios para a compreensão humana como a passagem do tempo, Ernesto Mané constrói respostas utilizando pensamentos derivados da física, o que resulta em observações ricas e sóbrias.”Mané também escreveu: "Eu sou o outro do outro", na revista Granta #10 "Crônica do Valongo", na revista da ADB "Cooperação e conflito dentro e fora da roda de capoeira", na Revista JUCA nº 9

Vida de escritor e festivais literários A vida de escritor estreante abriu um leque de possibilidades para Mané, que, desde 2025, tem cruzado o Brasil em uma grande turnê literária – jornada um pouco diferente das que trilhou como diplomata. Em 5 de novembro, por exemplo, ele participou do programa Conversa com Bial, da TV Globo, ao lado da historiadora Carolina Morais, em uma conversa sobre o livro Antes do início e a ressignificação da África como referência não apenas de passado, mas também de futuro.

Ainda em novembro, mês da Consciência Negra, integrou a programação da 15ª edição da Festa Literária das Periferias (Flup), no Rio de Janeiro, realizada entre os dias 19 e 23 e 27 e 30, cujo mote foi Ideias para reencantar o mundo: escrevivências, sonhos e batidões, em homenagem à escritora Conceição Evaristo. Sua participação foi como mediador da mesa Beco da memória, mangue do futuro, com a escritora Ana Maria Gonçalves e o cineasta Fred Kuwornu, que aconteceu no dia 20 de novembro, no Viaduto de Madureira. esquerda|471x471px|thumb|Os escritores Ernesto Mané e Ève Guerra na mesa “a porta está aberta”, da Flip 2026, com mediação da jornalista Adriana Ferreira Silva.Em 29 de novembro, participou também da Festa Literária Internacional da Paraíba (FliParaíba). Em 2026, integrou a programação principal da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), com curadoria de Rita Palmeira, na mesa A porta está aberta, ao lado da poeta e professora francesa Ève Guerra. A dupla conversou sobre diáspora africana, imigração, famílias birraciais e pertencimento.

No embalo de sua presença na festa, o autor deu uma longa entrevista em vídeo para o portal Migalhas, na Pousada do Ouro de Paraty, desdobrando temas como o apagamento da memória da população negra, sua passagem da Física para a diplomacia e o direito à memória como dimensão da identidade brasileira, elementos constitutivos do fazer literário que tem desenvolvido.

O lançamento de Antes do início também o levou a universidades dos Estados Unidos, incluindo Princeton, City University of New York (CUNY) e a Universidade Howard, onde pôde apresentar a obra em conversas sobre literatura brasileira e afrodiaspórica. No Brasil, também esteve na Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), no município de São Francisco do Conde, na Bahia, para falar com estudantes universitários de diferentes cursos e nacionalidades sobre o livro de estreia e o trabalho nas relações internacionais do País.

Reconhecimentos Em julho de 2026, por ocasião dos 101 anos do jornal O Globo, foi incluído na lista 101 brasileiros que constroem o futuro, que reúne perfis de figuras de diferentes áreas que contribuem de maneira significativa às transformações socioculturais e tecnológicas do Brasil. A matéria aborda sua trajetória entre a física nuclear e a diplomacia, e reflexões sobre ações afirmativas e sobre a relação entre armas nucleares e colonialismo. Em 2019, foi incluído na lista MIPAD (Most Influential People of African Descent) como um dos 100 negros com menos de 40 anos mais influentes do mundo, na categoria Política e Governança. O Centro de Ciências Exatas e da Natureza (CCEN) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), por meio do Programa de Pós-Graduação em Física (PPGF), destacou Ernesto Batista Mané Júnior como um de seus egressos de maior projeção internacional. A universidade reconhece seu papel como físico e diplomata, ressaltando sua trajetória como exemplo de excelência acadêmica.