A tradução sentido por sentido é o procedimento de tradução que procura reproduzir o significado de cada frase ou segmento do original, e não a sequência de suas palavras. Opõe-se à tradução palavra por palavra, ou tradução literal. A distinção remonta a Cícero e a Jerônimo, e até a segunda metade do século XX a teoria da tradução no Ocidente girou em grande parte em torno dela. Oposições semelhantes aparecem em outras tradições, como a tradução dos sutras budistas para o chinês e a tradução de obras gregas para o árabe em Bagdá.Munday (2001), pp. 21–22.

A fórmula foi retomada, com outros nomes e ênfases, por tradutores humanistas e reformadores, pelos teóricos ingleses dos séculos XVII e XVIII e pelos estudos de tradução do século XX, que a reformularam como equivalência dinâmica, tradução comunicativa ou domesticação. Para alguns críticos modernos, o debate entre letra e sentido tornou-se estéril.

Antiguidade Cícero e Horácio miniaturadaimagem|upright=0.8|Busto de Cícero, do século I a.C., nos Museus Capitolinos, em Roma Cícero expôs sua maneira de traduzir em De optimo genere oratorum ("Sobre o melhor gênero de oradores"), de 46 a.C., texto que apresentava sua versão latina de discursos de Ésquines e Demóstenes. Afirma ali que os traduziu "não como intérprete, mas como orador", conservando as ideias e as figuras, mas numa linguagem conforme ao uso latino, e que não julgou necessário verter palavra por palavra, mas preservou o estilo e a força da linguagem. Acrescenta que não achou que devesse contar as palavras ao leitor como moedas, mas, por assim dizer, pesá-las. O "intérprete" era o tradutor literal. Como os romanos costumavam ler a tradução ao lado do original grego, verter palavra por palavra significava literalmente substituir cada termo grego pelo equivalente gramatical latino mais próximo. Cícero não usou a expressão "sentido por sentido". Douglas Robinson classifica sua abordagem, assim como a de Horácio, como uma teoria "segmentar" da tradução, que considera a extensão do segmento a verter (palavra, locução ou frase) antes de passar ao seguinte.

Na Arte Poética, Horácio aconselha o poeta que queira recontar histórias antigas de modo original: nec verbo verbum curabis reddere / fidus interpres, "nem cuidarás de verter palavra por palavra, [como] fiel intérprete".Robinson (2002), p. 15. A passagem, que valoriza um texto esteticamente bem-sucedido na língua de chegada, teve grande influência nos séculos seguintes.Munday (2001), p. 20.

Jerônimo miniaturadaimagem|São Jerônimo em seu estúdio, afresco de Domenico Ghirlandaio (1480) Jerônimo foi encarregado pelo papa Dâmaso de revisar as traduções latinas dos Evangelhos então em circulação e produzir uma versão mais fidedigna. Segundo Harry Freedman, procurou corrigir os equívocos de tradutores anteriores, as alterações de revisores e os erros de copistas; para isso, reuniu os manuscritos gregos mais antigos, comparou-os com as versões latinas existentes e buscou uma tradução tão próxima quanto possível do significado original.

A fórmula que dá nome ao método aparece na carta a Pamáquio (Epístola 57), escrita em 395. Nela, Jerônimo defende sua tradução latina de uma carta de Epifânio de Salamina contra acusações de infidelidade ao original. Declara que, ao traduzir do grego, "exceto nas Sagradas Escrituras, onde até a ordem das palavras é um mistério", verte non verbum e verbo, sed sensum exprimere de sensu, isto é, não palavra por palavra, mas sentido por sentido.Robinson (2002), p. 25. Invoca como precedentes Cícero e a Arte Poética de Horácio e compara o sentido do original a um prisioneiro que o tradutor, como um conquistador, conduz para a própria língua.

Para Jerônimo, a tradução palavra por palavra, presa à forma do original, produzia resultados absurdos e encobria o sentido. A exceção que abre para as Escrituras reflete o risco que corria quem parecesse alterar o sentido do texto sagrado, passível de acusação de heresia. Sua declaração tornou-se a formulação clássica dos dois polos da tradução, o literal e o livre, e, por extensão, da oposição entre forma e conteúdo.

A leitura do verso de Horácio O verso de Horácio foi lido de maneiras diferentes ao longo dos séculos. Boécio, em 510, e João Escoto Erígena, em meados do século IX, entenderam que traduzir literalmente era a "culpa do intérprete fiel" (fidi interpretis culpa) e temeram tê-la cometido.Sobre Boécio, Erígena, Burgúndio de Pisa e Denham, ver Robinson (2002), pp. 35, 37, 42 e 156. Sobre Sherburne, ver T. R. Steiner, English Translation Theory, 1650–1800 (Amsterdã: Rodopi, 1975), p. 89. A tradução de Lefevere está em André Lefevere (ed.), Translation/History/Culture: A Sourcebook (Londres e Nova Iorque: Routledge, 1992), p. 15: "Do not worry about rendering word for word, faithful translator, but render sense for sense." Essa versão transforma o conselho ao escritor em conselho ao tradutor e projeta anacronicamente a fórmula de Jerônimo sobre o verso de Horácio, quatro séculos anterior. Para uma discussão, ver também Douglas Robinson, Who Translates? (Albany: SUNY Press, 2001), pp. 170–174. Burgúndio de Pisa, na década de 1170, e Richard Sherburne, em 1702, perceberam que Horácio se dirigia a escritores, não a tradutores, mas ainda supunham que ele considerava toda tradução literal. John Denham, em 1656, e André Lefevere, em 1992, leram a passagem como uma advertência aos tradutores contra a tradução literal.

Outras tradições Na história da tradução dos sutras budistas do sânscrito para o chinês, as primeiras versões, dos séculos II e III, seguiam de perto a sintaxe do original, palavra por palavra. Entre os séculos III e VI houve uma guinada para o que estudiosos chineses modernos chamam yiyi, aproximadamente "tradução livre", da qual Kumarajiva é considerado pioneiro. Mais tarde, Xuanzang defendeu que se atentasse para o estilo do original e que textos simples não recebessem polimento literário.

No período abássida, a tradução de obras científicas e filosóficas gregas para o árabe, centrada em Bagdá, conheceu dois métodos. O primeiro, associado a Yuhanna ibn al-Batriq e a Ibn Na'ima al-Himsi, era altamente literal: substituía cada palavra grega por uma árabe e, quando não havia equivalente, tomava a palavra grega de empréstimo. Como não deu bons resultados, foi revisto segundo o segundo método, associado a Hunayn ibn Ishaq e a al-Jawhari, que traduzia sentido por sentido e produzia textos fluentes, sem distorcer a língua de chegada. Jeremy Munday observa que essas descrições usam terminologia fortemente influenciada pelo discurso europeu sobre a tradução.

Renascimento e Reforma Bruni e os humanistas Por volta de 1420–1426, Leonardo Bruni escreveu De interpretatione recta ("Da tradução correta"), a partir de sua experiência com a tradução da Ética a Nicômaco. O tratado critica a tradução medieval palavra por palavra de Aristóteles e defende que o tradutor preserve também o estilo e o ritmo do original. É considerado o primeiro texto dedicado exclusivamente à reflexão sobre a tarefa de traduzir e um marco da passagem da história medieval à história moderna da tradução. Tradução e apresentação de Mauri Furlan.

D. Duarte miniaturadaimagem|upright=0.8|D. Duarte numa iluminura de 1534 da genealogia de D. Manuel Pereira, 3.º conde da Feira Entre 1435 e 1438, o rei D. Duarte incluiu no Leal Conselheiro um capítulo intitulado "Da maneira pera bem tornar alguma leitura em nossa linguagem", em que formula cinco regras para traduzir do latim para o português. A primeira exige "conhecer bem a sentença do que há de tornar, e pô-la inteiramente, não mudando, acrescentando, nem minguando alguma coisa que está escrito". A segunda proíbe palavras latinadas ou de outras línguas e pede que tudo se escreva conforme o "geral bom costume do nosso falar". A terceira, porém, pede palavras próprias da língua, mas "respondentes ao latim", sem trocar umas por outras só porque parecem equivalentes. As duas últimas tratam do decoro e da clareza do texto. Cristina Machado e Marcia Martins defendem que o texto, em geral ausente das histórias canônicas da teoria da tradução, faz de D. Duarte um dos pioneiros da disciplina.

Dolet e Lutero Em 1540, o humanista francês Étienne Dolet escreveu La manière de bien traduire d'une langue en aultre, com cinco princípios em ordem de importância: entender perfeitamente o sentido e a matéria do autor; conhecer perfeitamente as duas línguas; evitar traduzir palavra por palavra; evitar formas latinizadas e incomuns; e encadear as palavras com eloquência.Munday (2001), pp. 26–27. Na terceira regra, afirma que o tradutor não deve se sujeitar ao original a ponto de verter mot pour mot, e que é loucura querer traduzir linha por linha ou verso por verso. Munday observa que a preocupação com uma forma eloquente e natural na língua de chegada estava ligada ao desejo de fortalecer o francês vernáculo. Dolet foi queimado em 1546, depois de condenado pela Faculdade de Teologia da Sorbonne, aparentemente por ter acrescentado a expressão rien du tout ("absolutamente nada") a uma passagem de Platão sobre o que existe depois da morte.Munday (2001), pp. 22–24.

miniaturadaimagem|upright=0.8|Folha de rosto da Bíblia de Lutero de 1534 Martinho Lutero traduziu o Novo Testamento para o alemão em 1522 e o Antigo Testamento em 1534. Acusado de alterar as Escrituras, respondeu com o Sendbrief vom Dolmetschen ("Carta aberta sobre a tradução"), escrito em Coburgo em setembro de 1530.Luciane Reiter Fröhlich, Sendbrief vom Dolmetschen de Martinho Lutero, dissertação de mestrado em Linguística, Universidade Federal de Santa Catarina, 2004. A crítica mais conhecida dizia respeito a Romanos 3:28, em que Lutero acrescentou allein ("somente") à frase sobre a justificação pela fé, embora o texto latino não tivesse palavra correspondente. Lutero respondeu que traduzia para um alemão puro e claro, no qual allein seria usado para dar ênfase. Como Jerônimo, rejeitava a tradução palavra por palavra, que não transmitia o mesmo significado e às vezes era incompreensível. Recomendava que o tradutor perguntasse à mãe em casa, às crianças na rua e ao homem comum no mercado, observasse como falam e traduzisse dessa maneira. Para Munday, Lutero não fez a discussão entre literal e livre avançar em relação a Jerônimo, mas a atenção que deu à língua do povo e ao leitor da tradução foi decisiva.

Séculos XVII a XIX Dryden miniaturadaimagem|upright=0.8|John Dryden, retratado por Godfrey Kneller Na Inglaterra do século XVII, predominavam as traduções em verso dos clássicos gregos e latinos, algumas muito livres. Abraham Cowley, no prefácio às Pindarique Odes, propôs chamar de imitação esse método, que lhe permitia tirar, omitir e acrescentar o que quisesse.Munday (2001), pp. 25–26. Em reação, John Dryden, no prefácio de 1680 à tradução coletiva Ovid's Epistles, das Heroides de Ovídio, dividiu toda tradução em três tipos. A metáfrase é a tradução palavra por palavra e linha por linha. A paráfrase, tradução "com latitude", corresponde à tradução sentido por sentido: o tradutor não perde o autor de vista, mas segue menos as palavras do que o sentido, que pode ser ampliado, embora não alterado. Na imitação, o tradutor se afasta tanto das palavras quanto do sentido e toma do original apenas algumas indicações gerais. Dryden preferia a paráfrase e comparava a tradução servil e literal a dançar na corda com as pernas acorrentadas. Na dedicatória de sua Eneida (1697), porém, disse ter procurado um caminho entre a paráfrase e a tradução literal.

Tytler